
Chove de novo. Sempre a essa hora, chove. E eu tenho que agradecer por não estar lá fora, desprotegida, sendo molhada pela chuva que cai fria nessa tarde de verão. É verão, mas o vento é frio. E eu não tenho visto graça em caminhar na chuva.
Olho para a casa agora tão arrumada. Incríveis os efeitos que a desordem tem desencadeado em mim. Não tenho conseguido mais ver as coisas desarrumadas. Sujas, fora do lugar, empilhadas. Agora está tudo mais organizado em volta, e eu, nesse final de tarde, abrigada da chuva, consigo até pensar em coisas boas por vir. Depois de tantos dias de escuridão na alma, respirando fundo. Pensar em como são pequenos meus temores, como tem sido pequena minha inquietação diante de situações que eu ainda não tinha vivido. Meus maiores medos, meus pesadelos cotidianos confessos. Na verdade, o medo de ser frágil. De depender. De não saber. De não poder escolher.
Tanta gente não pode. E eu reclamando das ondas desconhecidas pelas quais, até agora, tenho conseguido nadar. Com a ajuda de quem não me deixa sozinha.
Minha alma está desarrumada. Os peixes saltam de um lado para o outro, e eu ouço palavras cruéis sobre os erros que cometi. Elas não vêm de ninguém: elas ficam na minha cabeça, noite e dia. Me perseguem quando acordo, conforme o dia passa, quando anoitece e fica tudo muito mais escuro. E eu me sinto exausta de tanto ouvi-las. Tenho lutado mentalmente pelo silêncio. Por agir silenciosamente, por parar de machucar quem está em volta e não tem culpa das minhas decepções, das reações que nem eu sei explicar. Que não merecem ouvir palavras duras. Que têm suas próprias histórias com que se preocupar, e tentam estender a mão para alguém que se sente desamparada em face de problemas tão pequenos.
Não tenho muitas certezas nessa vida. Algumas delas se resumem às pessoas que amo. Àquelas com quem aprendi grandes e pequenas coisas. Às heranças que trago, tão maiores do que minha própria percepção. Tenho certeza das pessoas que escolhi pra estarem comigo. Tenho certeza de que as coisas não acontecem por acaso. Ou que, se por acaso acontecem, o que fazemos com elas não será fruto desse mesmo acaso. Fantasiamos deuses, mitos e histórias como combustível para digerir a grandeza desse mundo, o bom e o ruim. Isso já é suficiente para que sejam reais, tão reais quanto os alicerces que fornecem, tão reais quanto suas consequências.
Nossa alma é imensa, tão imensa que às vezes não dá pé. A gente afunda nela. E eu não quero mais ficar longe. Longe dos outros, longe da parte boa de mim. Quero segurança, o direito de fazer planos. Mas, sobretudo, quero mãos dadas. Com todas as famílias que encontrei por esse mundo. E perdão para os erros e excessos de uma alma tão desajeitada às vezes. O coração, com o que há de bom, apesar dos erros, continua o mesmo.


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