quinta-feira, outubro 18, 2007

A marca de Valentina

Quando a gente fica muito tempo de molho, nossas referências mudam um pouco. As culturais e de lazer, por exemplo. Nunca fui muito chegada na Seção da Tarde, mesmo quando era adolescente e desocupada. Preferia o Vale a Pena Ver de Novo. Acho que sou uma noveleira não-confessa. Afinal, seguindo o hábito da casa paterna, cresci vendo novelas.

Mas a novela que está passando atualmente no Vale a Pena Ver de Novo não me atraiu muito. Em compensação, acabei acompanhando mais ou menos todas as outras vespertinas/noturnas. Especialmente a novela das seis, que agora caminha para seus finalmentes. O tema me é atraente, o horário também – aquele limbo de final de tarde em que, quando trabalha, a gente sempre quer estar em casa. Bem, depois de dois meses em casa, a novela acabou virando diversão meio fixa do horário.

A novela das seis tem, como pano de fundo do par romântico principal, a saga de uma linhagem de mulheres que carregam a tradição inata da bruxaria. Não vou cometer o sacrilégio de dizer que é uma bruxaria "do bem", porque na real, não existe bruxaria "do mal" em si – mas isso é papo pra um outro longo texto, heeh. Enfim, seguindo a lógica noveleira, elas têm por tradição primordial utilizar seus poderes para promover o bem. A protagonista da novela, Nina, é uma das premiadas com a herança dos sentidos ocultos aguçados. Pertence à linhagem das Valentinas, descendentes da Valentina original, uma bruxa poderosa que vivera séculos antes, trazida ainda criança para o Brasil. As herdeiras espirituais de Valentina carregam consigo uma marca física: um "V" impresso, como sinal de nascença, em alguma parte do corpo. E um fenômeno importante acontece quando elas menosprezam seus poderes ou não os usam em sintonia com sua essência. A tal marca começa a sumir, se apagar, mostrando claramente à Valentina que ela está se desviando de seus princípios. Foi o que aconteceu com Nina, depois de alguns desvios de conduta que andou cometendo, em nome de frustrações que sofreu no passado.

Agora, com o final da reclusão se aproximando, me ponho a pensar na vida sob o prisma dessa nova referência cultural, rs. Acho que minha marca de Valentina, se alguma houvesse, estaria bem apagada nos últimos tempos. Olho para meu dia-a-dia até antes do acidente, para os pensamentos que ocupavam minha mente nos últimos meses. E vejo que, quase sem perceber, mudei meus propósitos cotidianos quase todos ao mesmo tempo, em nome de conceitos que acabaram se revelando um tanto duvidosos. Tudo bem, realmente mudanças precisavam ser feitas e eu escolhi, entre as opções possíveis no momento, aquelas que pareciam mais ou menos razoáveis. Mas nem por isso elas me trouxeram paz de espírito ou dias melhores. Na ânsia de resolver os problemas que se apresentavam, acabei deixando passar outros valores preciosos, que agora começam a fazer falta no fechamento das contas do dia.

Não sei se é o caso de me arrepender de alguma das mudanças. Talvez, se não as tivesse feito, jamais teria percebido a real importância do que ficou para trás. E nem peneirar o que realmente está fazendo falta nesse momento, no meio do pacote dispensado. Mas o que percebo, depois de tantos anos mudando ao me sentir insatisfeita, é que a mudança em si não é o ponto primordial que nos fará sentir mais felizes. Deve-se sempre buscar caminhos melhores, sim; mas, antes, alguma outra coisa mais profunda precisa ser revista, para nos levar a eles.

Ao abrir mão de um trabalho que amava, por exemplo, por motivos alheios ao trabalho em si, percebo hoje quão insubstituível era a satisfação trazida por esse mesmo trabalho. Não é o caso de voltar atrás, como disse. Mas é o caso de analisar, agora friamente, o peso que tiveram os motivos que me fizeram abrir mão daquela realização, em nome de outras coisas que me faltavam naquele momento. E saber que os problemas internos, a insegurança e outras coisas nunca vão estar totalmente resolvidos dentro de um ambiente de trabalho, seja ele qual for. Mas que, muitas vezes, aquilo ou aquela pessoa que mais nos exaspera é, na verdade, a porta pela qual iremos aprender as lições mais importantes para conquistar autonomia e aprender a nos defender – e, no futuro, não ter que abrir mão de novo de realizar sonhos e crescer, com vontade e verdade, dentro do ambiente profissional.

O mesmo vale para a vida afetiva. Não me arrependo de nada que tenha feito até aqui nesse campo, embora reconheça que muita dor-de-cabeça pudesse ter sido evitada. Mas às vezes a gente tem que se colocar à prova para aprender. A lição mais importante que aprendi nos últimos tempos é não julgar ou condenar ninguém – como algumas vezes fiz durante o último ano – por buscar respostas da maneira que achar mais adequada para o momento. A vida se encarrega de nos mostrar que nem tudo é preto no branco, e que nem sempre a gente entende o que move as atitudes dos outros, por mais que se conheça ou estime alguém, inclusive os amigos. Que às vezes, olhar pra trás não significa se prender, mas serve justamente para se saber a hora e a maneira de andar para a frente. E ao mesmo tempo, que há valores preciosos dos quais não podemos nem devemos abrir mão, até para que o afeto pelos outros, aqueles que realmente nos amam e nos respeitam, possa crescer.

E por fim, acho algum sentido até mesmo nesse tempo de parada que tive que aceitar, durante o qual tantas vezes me vi frustrada, à parte do mundo, num descanso inútil. Às vezes a poeira da mente da gente demora muito a assentar. Meses, até. Mas, só depois disso, é que se consegue ver as coisas com mais clareza. Acho que agora, para mim, é tempo de parar de buscar mudanças radicais, ou voltas ao passado, achando que em alguma delas estará a solução para os problemas. Agora é tempo de olhar com isenção o passado e ver o que realmente dali se deve trazer. E, ao mesmo tempo, não tentar apressar o futuro em nome de um único alfinete que nos cutuca a bunda quando sentamos. De vez em quando, a gente acaba fugindo dele pra cair numa cama de arame farpado. Antes, deve-se perguntar se aquele alfinete não era, na verdade, a vacina que a gente precisava contra outras coisas mais fortes que viriam depois, ali ou em outro lugar, até mesmo para possibilitar esse futuro que esperamos.

Achar o equilíbrio no meio dessas duas atitudes, e saber quando e para onde mudar, é o desafio. Quem sabe, assim, recupero o brilho da minha marca de Valentina, que anda louca pra ver a luz do sol novamente.

Mônica disse... Caramba, que texto maravilhoso!!!Bem-vinda à sua vida, Jujú!!! Beijões; Mônica

Katia Abreu disse... sempre venho aqui (links do blog da mari he) e sempre gosto dos teus textos. me identifico. :~~desta vez deixei a timidez de lado e resolvi dar um oi.
"Acho que agora, para mim, é tempo de parar de buscar mudanças radicais, ou voltas ao passado, achando que em alguma delas estará a solução para os problemas."
tou meio nessa também. é tããão dificil isso tudo, né? ;)
beijo

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