É difícil falar sobre o amor. Falar abertamente, sem rodeios ou sentidos figurados. Amar alguém, como eu disse há alguns dias, sempre foi meu Calcanhar de Aquiles. Acho que nunca tive dúvidas graves em nenhuma outra área da minha vida, apesar de viver pensando, exaustivamente refletindo sobre cada uma delas, praticamente desde que existo. Mas ao amor não se aplicam reflexões precisas. Aí complica, é claro, para pessoas pretensamente racionais como eu.
É que em outras áreas de vida até é possível misturar racionalidade e paixão. No trabalho, por exemplo. Sempre fui do time daqueles que não conseguem fazer uma coisa por muito tempo no piloto automático. Por mais que o salário seja bom, que o pacote de benefícios seja atrativo, que o café seja doce. Não dá para fazer alguma coisa, mesmo profissionamente, sem se envolver. Pra mim não dá. Porque meu modo de sentir é pela mente, e minha mente tem que estar apaixonada. Tem que voar, não pode sentir as horas se arrastando até o final do expediente.
Já vivi experiências profissionais absolutamente passionais. Apesar de muita gente não acreditar, pois não sou especialista em demonstrações públicas. O sujeito tem que ser observador para perceber. Tem que ver a maneira como eu me dedico, as idéias que coloco, meu envolvimento com o tema até fora do ambiente de trabalho. Não sou boa em demonstrar brilhantemente, a cada hora, como estou gostando do que faço. Se estou ali, pode acreditar que estou gostando. Talvez esse seja um erro, pois nem todo mundo é tão discretamente transparente assim. Às vezes as pessoas não subentendem. Às vezes, simplesmente não entendem. É preciso dizer, e ainda estou aprendendo a dizer, quando necessário.
Ser mental no amor também pode ser uma cilada. Eu já tomei a iniciativa de terminar alguns relacionamentos na vida. Curtos. Curtíssimos, porque desde o primeiro momento eu sempre soube se queria continuar uma história ou não. Quando achava que não, simplesmente não conseguia partir para um segundo encontro, para uma segunda conferência. Ironicamente, todas as vezes que precisei dar foras inequívocos envolveram pessoas que queriam continuar, com toda a sinceridade e fé, algo já depois do primeiro encontro. E eu sempre os encarei e disse, mesmo doloridamente, que não seria possível. Nunca sumi ou fugi da responsabilidade horrível, que às vezes nos cai no colo, de acabar com as expectativas de alguém.
Minha decisão também se mantém quando estou, desgraçadamente, no papel oposto. Nunca precisei de mais de um encontro para decidir se queria namorar, ver de novo, viajar, ficar ou até noivar com alguém, se isso nos fosse concedido com o tempo. Já ouvi algumas juras de amor, que se traduziram ora em relacionamentos mais ou menos longos, ora em outros mais curtos. Mesmo nos curtos, cheguei a ouvir algumas juras. Não sei por que, tão desnecessárias, apenas para nos fazer duvidar do dia em que forem verdadeiras. As pessoas não sabem o estrago que fazem, às vezes, apenas querendo ser gentis.
E eu me jogo. Como não acho que seja possível, como juro que nunca mais farei depois de cada relacionamento – longo ou curto – terminado. O ponto de não-retorno, para mim, está um pouco depois do primeiro "oi", um pouco antes do primeiro beijo. Depois disso, não há como evitar. Se não der certo, vou sofrer. Por um dia ou por um ano, tanto faz. Se eu tiver que terminar, vou sofrer por estar fazendo alguém sofrer. Se alguma atitude minha, ainda que inadvertida, levar ao término, também vou sofrer por culpa. Se der certo, vou sofrer pela distância, pela dúvida, pelo medo de que as coisas mudem da noite para o dia de novo, sem que eu possa vislumbrar qualquer explicação lógica para isso. Mas também vou me entregar, vou colocar a outra pessoa à minha frente muitas vezes, vou mudar minha rotina para estar perto dele, vou rever minhas prioridades e meus pensamentos. Não vou virar outra pessoa. Não vou abrir mão de meus ideais mais caros. Mas vou exercitar a compreensão ao máximo, vou trazer à tona todas as partes de mim que tiverem mais a ver como ele, para que possamos, em tudo que for possível, andar pelo mesmo caminho.
Difícil achar alguém que já saiba o que quer ou o que não quer assim, no primeiro instante. E é cada vez mais difícil, para as pessoas, ouvir um "sim". Espera-se o jogo, o charme, a ginga. Às vezes, eles simplesmente não entendem. Impossível alguém se apaixonar desse jeito. Ainda mais essa moça, essa moça antes tão cerebral.
E assim, sem entender, eles se afastam, muitas vezes negando-se ao horrível papel, do qual nunca fugi, de dizer "acabou". Talvez por não terem certeza, talvez por terem medo, talvez por acharem que está subentendido. E aí se desconcertam ao ver a moça cobrando explicações, tentando entender qual detalhe estúpido causou aquela reviravolta tão sem sentido numa história que ia bem. O direito a explicações deveria estar incluído na Constituição Federal. O silêncio pode doer menos para quem está de saída, mas causa cicatrizes infinitamente maiores em quem fica. A verdade, geralmente, é menos pior do que todas as suposições de uma mente deixada no escuro.
Porém, sem respostas para as insistentes perguntas, de alguém que aprendeu na escola a perguntar, eles se calam. Afastam-se, também desconcertados. E um dia, se surpreendem ao ver como aquela moça, que se jogou de cabeça, que dividiria uma casa, que estava disposta a cruzar fronteiras e misturar sotaques, virou também as costas e andou para outro lado. Como agora ela não faz questão nem mesmo de um cumprimento, de dividir conversas de elevador. De como alguém que poderia dividir uma vida não tem mais um segundo de tempo para uma atualização de cotidianos. Pois é. As decisões continuam muito claras para essa moça: ou sim, ou não. Ela não sabe como se salvar desse vício das definições. Às vezes ela tenta, às vezes até consegue por um tempo. Mas não é real, e a tentativa logo se esvai.
Eis a maldição da racionalidade. Quando se abre um pouco as mãos, é impossível represar novamente a avalanche de sentimentos que afoga todos ao redor.
E, depois de tantas idas e vindas, pergunto-me se, apesar de tudo, realmente amei alguém até hoje. Talvez o amor seja apenas o conforto de receber um recado ou telefonema de madrugada, de alguém dizendo que sentiu saudades de você. Talvez seja a sensação maravilhosa de acordar e ser abraçada com carinho durante a noite. Seja o esperar feliz de um ônibus ou um avião chegando. Seja a ansiedade do final de semana, a vontade de dizer e ouvir coisas que te fazem sentir querida. Talvez seja a alegria de saber que haverá alguém te esperando, alguém que você poderá abraçar e beijar, e de quem sentirá uma falta absurda, e que mudará seu dia quando der um sinal de vida. Alguém que te faz imaginar que pode dar certo, que vocês podem dividir alguns planos para o futuro. Alguém que te faz sentir a vida andando, pulsando dentro de você, e que você não é mais a mera expectadora da felicidade alheia, de todos que estão aí fora com seus alguéns.
Ou talvez não seja isso o amor. Talvez o amor por uma pessoa, por um ser em si, seja mais do que a loucura de estar perto, de fantasiar que uma ou duas coisas da personalidade dele têm tudo a ver com você, e por isso vocês foram feitos um para o outro.
Não sei se o amor é mais ou é menos do que isso. Talvez o amor seja um encontro de almas que ainda não vivenciei. Talvez, ao contrário, o amor seja meramente um conceito. Uma tentativa vã de aprisionar o que é efêmero.
Mas para mim, poderia ser bem mais simples. E o mundo, bem menos complicado.
Mônica disse... Jujú, Uau!!! Isto aqui é praticamente um dossiê. Mais profundo que os textos da Tati, com certeza. Terei que ler mais vezes para desgustá-lo como merece. E, de certa maneira, enxerguei já uma mulher crescida e menos vulnerável que há duas semanas. Acho que a Vila dos Remédios fez você se polir com bombril. Vamos conversar logo. Beijão, Mô
Anônimo disse... lindo, perfeito...e acima de tudo: adulto!saudades, ju!beijo, fê
Mônica disse... Jú! Acabei de ler de novo o seu texto. Bárbaro, viu, amiga?! Como disse a Fê, perfeito!!! Você conseguiu colocar tanta coisa nele. Tão intenso!!!
.::.paulinha.::. disse... Fiquei até com medo de ir no Gilson agora rs bJU
quinta-feira, setembro 27, 2007
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