quarta-feira, julho 18, 2007

Voar

Eu me lembro da primeira vez em que voei. Eu já tinha 23 anos e voltava de um bonito feriado. Entrei no avião sozinha, me acomodei em uma das poltronas de couro branco da Vasp. Suei em bicas. Depois do primeiro pânico, olhei pela janela e vi um cenário dourado, dos campos mineiros ao entardecer, de Belo Horizonte como cidade encantada do pôr-do-sol.

Aquele misto de pavor e encantamento sempre me acompanhou. Todas as vezes, é igual. Para além da fobia paralisante, da angústia, da falta de sono e apetite, ter medo também tem um lado bom. Nunca se fica passivo na experiência. Olho pela janela e vejo as nuvens lá fora. Abaixo de nós. E, enquanto as pessoas ao lado lêem jornal, olham para a tela de seus laptops ou jogam Sudoku, penso em todos os milênios, todas as gerações, todos os sonhos que embalaram homens e mulheres em busca dessa imagem que vejo pela janela. As nuvens abaixo de nós. O Sol, entrando pelo vidro. Acima, só o céu.

Desafiamos a natureza em busca de um sonho. Dá medo, mas é sempre belo. Depois de algumas vezes, a gente se habitua. Até ao medo. À indagação perene de como podemos estar ali, sentados tomando refrigerante, enquanto ao redor é o nada, um buraco por todos os lados. De como toneladas de ferro podem levitar dessa maneira, minha parca inteligência não-exata não se cansa de indagar. E por fim, a impressão de conforto, de segurança das aeromoças uniformizadas, da voz simpática do comandante nos dando bom-dia, bem-vindos ao vôo que nos levará sei lá pra onde. Nunca se sabe. Mas sempre se confia. Sempre se confia nas balinhas, na música do fone de ouvido, no filme de bordo, nas nuvens e no azul, na saudade do peito, na vista de casa se aproximando, dentro de instantes estaremos chegando.

Confia-se no caminho de todos os dias para casa, nos prédios conhecidos, nas paradas do farol, até na chuvinha fina que cai se confia. Como uma criança de colo, diante de coisas amadas. Confia-se, simplesmente.

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