quarta-feira, janeiro 03, 2007

O pré-ano

Chove no começo de ano da menina. De camisola rosa, ela olha pela janela do apartamento o dia claro e molhado que refresca as ruas. A chuva vem amiga, lava ânimos, traz trégua aos temporais ferozes dessa época do ano. Em sua reclusão forçada, que a surpreendeu numa manhã de mal-estar, a menina olha o apartamento limpo e arrumado. O silêncio lhe lembra das mudanças das últimas semanas. Um ar morno pelos quartos, inundado por uma nesga teimosa de sol, lembra-lhe de tempos de afeto que a comovem.

A menina traz dois grandes hematomas no corpo, frutos do estabanamento que a acompanha desde criança. Nada de fatores externos. Pensa em fazer um chá. Se ela bebesse champanhe ou fumasse, poderia fazer um quadro blasè mais bonito, assim deitada no sofá de camisola, olhando o horizonte, taça de vinho na mão. Mas não, estamos na América do Sul, ela não é uma atriz ou lady européia e o tempo urge.

A sensação de aconchego do apartamento vazio a perturba. Sua vida tão arrumada e tão limpa, diferente das tempestades lá de fora, do mendigo que continua dormido na esquina perto de casa, no mesmo lugar onde ela o avistou quando passou de táxi rumo às festas de Natal (ninguém o avisou de que o ano mudou, de que agora tudo será melhor?).

Coloca uma música no aparelho de som, pega um copo de Coca-cola e pensa em ligar para alguém. Uma lufada de vento sacode a planta na janela. Aos poucos, ela volta a respirar. Vem-lhe uma ligeira vontade de chorar. Mas ela sabe que é só TPM.

Um comentário:

Mônica disse...

Jujú, minha amiga querida... O que aconteceu? Caiu? Algum acidente???
As minhas TPMs são todas angustiantes e chorosas... Ainda bem que sabemos que são TPMs. Beijos!!!