
Inspirada pelo lindo post da amiga Mônica, sobre suas recordações com Vovó, me lembrei de texto que escrevi há algum tempo, antes de me tornar blogueira, sobre o mesmo tema. Era a semana em a atriz Zilka Salaberry, a eterna Dona Benta, foi ver estrelas mais de perto (gostou, Fê?) ;), e lendo uma crônica sobre ela, tive também vontade de escrever sobre minhas avózinhas - estrelas cadentes que, à sua maneira, souberam conduzir com maestria e abnegação a própria vida e a vida de seus rebentos, em famílias especialmente patriarcais. Embora não saibam (ou saibam... hehe), elas, ao lado de minha bruxa e guerreira-mor, mamãe, foram as que me ensinaram, com seus exemplos, a seguir os caminhos para ser uma Mulher de verdade - as mais iguais entre os iguais. :)
Depois, soube pela amiga Val que também Zilka, antes de ser a Dona Benta, foi uma contestadora - como atriz de teatro, em peças polêmicas, como guerreira a favor da classe artística. Claro, alguém encarnando uma vovó-exemplo só podia ser gente boa. :)
Reedito aqui o email que mandei a amigos na época, seguido da crônica que o inspirou.
De: Juliana [mailto:juwims@yahoo.com.br]
Enviada em: sexta-feira, 11 de março de 2005 14:53
Assunto: Lembranças da Vó
Oi pessoal,
vocês já sabem da morte da Zilka Salaberry, a Dona Benta. Na verdade não ia comentar o assunto, mas hoje li uma coluna n'O Globo que me fez reviver muitas lembranças. Não convivi com a avó paterna, criatura doce e marcante, mas que se foi muito cedo, deixando algumas fotos e uma vaga lembrança na minha memória de 6 anos de idade. A outra vó era pessoa forte, de fibra e muito bondosa, mas cuja herança alemã fazia contida, de poucas palavras e um sorriso esporádico. Nos últimos anos de vida, se abriu mais, falava do dia-a-dia e dos assuntos da vida, deixando transparecer um carinho que, acho, não sabia direito como expressar de outra forma - mas que estava lá, pra quem quisesse reparar, nas entrelinhas. E, na casa dessa mesma avó, pequena e loirinha até o fim dos seus 70 anos (como pode??), eu assistia ao Sítio e tinha medo da Cuca. Mas também me encantava querendo ser a Emília, torcendo por Narizinho e Pedrinho e ouvindo os conselhos da Dona Benta. Mais tarde, quando fui devorar a coleção dos livros do Sítio do meu pai, impossível não ler as falas da vó com a voz e o rosto da atriz que era a cara dela. Era a única que eu enxergava de fato, com imagem certa, nas narrativas dos livros.
Por isso, me identifiquei muito com o texto a seguir. Desculpem se é longo, mas acho que vocês, que foram crianças no início dos anos 80, vão gostar. E desculpem pelas lembranças que descrevi, mas eu, na minha saudade, fiquei com vontade de dividi-las com vocês.
Beijos e ótimo final de semana!
da Ju
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da Ju
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DONA BENTA TAMBÉM FOI MINHA AVÓ
(E a soma das avós do Brasil)
Minha avó Helena era uma criatura fantástica. Minha outra avó, Lourdes, nem cheguei a conhecer. Mas ganhei uma avó extra, de lambuja, graças a Monteiro Lobato. E, por uma escolha abençoada da TV, Dona Benta, minha avó da ficção, ganhou a cara da Zilka Salaberry. A atriz morreu hoje pela manhã, aos 87 anos. E hoje é dia 10 de março, data do aniversário da minha avó Helena. Olha como a vida pode ser redonda e doce, mesmo nos momentos de tristeza...
Dona Benta engoliu Zilka. Grudou nela de um jeito tal que muita gente esqueceu que ela tinha estreado na carreira artística no cinema, nos anos 30, pelas mãos de ninguém menos que Humberto Mauro, o cracaço de "Brasa adormecida". Ela ainda fez chanchada, comédia rasgada e se transformou na primeira mulher a ficar nuazinha da silva num palco de teatro.
Depois foi riponga e bicho-grilo quando ninguém nem sabia direito o que era isso. Era independente, mulher-furacão e lutou pela emancipação feminina sem nunca ter precisado distribuir panfletos ou empunhar bandeiras. Na TV, fez trabalhos importantes. E isso não é conta de chegar, é informação literal. Olha só: ela esteve em novelas como "Irmãos coragem" e "O casarão" e trabalhou também na histórica série "O bem-amado". Já era um currículo e tanto, não?
Ainda viria Dona Benta. Quando ela chegou, foi como se tudo o que Zilka tivesse feito antes sumisse no colo quente daquela avó que todo mundo queria ter. Na minha fantasia infantil, eu queria ser Emília. Queria ser inteligente como Emília, mesmo que precisasse ser boneca. E queria também ter a permissão de ser Emília só para ser arrogante, autoritária, espevitada... e mesmo assim sempre acabar me dando bem.
Mas o que talvez mais me agradasse na idéia de ser Emília é que eu sempre ia tomar bronca e ganhar cafuné... de Dona Benta. Minha avó teria o corpo farto de Zilka e as histórias deste e de outros tempos chegariam aos meus ouvidos pela voz rouca da atriz. Depois disso, era só dizer "Pirlimpimpim" e pronto, eu conseguiria viajar até aqueles mundos incríveis pegando carona na voz da vovó.
A DONA BENTA DE ZILKA - OS PURISTAS QUE ME PERDOEM - MELHOROU MUITO A DO MONTEIRO LOBATO.
O inventor do "Sítio" era mesmo um gênio e merece todas as glórias, mas sempre foi meio carrancudo e cri-cri. Foi pelas mãos de Zilka que Dona Benta foi criada "com açúcar e com afeto" (olha o Chico aí de novo, gente!) para virar nossa avó arquetípica: a soma de todas as avós do Brasil.
E talvez tenha sido por isso - e só por isso - que Dona Benta tenha grudado em Zilka como Super Bonder. A atriz, que deu vida a tantas bruxas na TV e no palco, no fundo era uma fada. Tinha a varinha de condão para achar um personagem.
Em entrevista a Lilian Fernandes, publicada no "Segundo Caderno" há três anos, Zilka deve ter levado muitos leitores às lágrimas. Ela dizia que torcia por Nicette Bruno, para quem entregava o bastão de Dona Benta. E completava:
"Algumas pessoas até hoje choram quando me encontram. E quando querem elogiar algum trabalho meu, dizem coisas do tipo: 'Dona Benta, a senhora estava ótima como uma cafetina na minissérie ’Teresa Batista’!' (...) Daqui a pouco ninguém mais lembra que eu fiz Dona Benta.
Ah, Zilka, me perdoa, vou discordar: sua imagem vestidinha de Dona Benta vai ficar na minha memória pra sempre, vovó.


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